As fases do luto e a perspectiva psicanalítica
- André Pacheco
- há 12 minutos
- 3 min de leitura
O luto é uma das experiências mais universais e, ao mesmo tempo, mais singulares da vida. É possível falar de luto não apenas nas situações de morte, mas também em momentos cotidianos como o final de um relacionamento, a perda de um emprego, o diagnóstico de uma doença e até mesmo o surgimento de uma decepção.
Os diferentes meios de comunicação tornaram popular a noção de que o luto seria vivido em etapas como negação, raiva, barganha, depressão e aceitação. Na prática, porém, as coisas podem se dar de maneira menos linear. Nesse sentido, seria interessante conhecermos uma forma diferente de se pensar sobre o luto.
O luto para a psicanálise
Em seu ensaio clássico "Luto e Melancolia", Freud estabelece uma importante diferenciação. O luto seria uma reação normal e esperada à perda de um objeto amado. É um processo doloroso, mas que se resolve com o tempo, permitindo que o sujeito retorne posteriormente à sua vida. Na melancolia, por outro lado, há identificação do sujeito com o objeto perdido. Em função disso, pode haver mais dificuldade para que sujeito e objeto se desvinculem.

Pode-se dizer que, na melancolia, a sombra objeto perdido recai sobre o sujeito. Com isso, o sujeito sente-se desvalorizado e empobrecido. As críticas ou a raiva que talvez pudessem ser dirigidas a quem se foi acabam sendo direcionadas contra o próprio melancólico. O sujeito, enfim, culpa-se pela perda, sentindo-se indigno e incapaz de amar.
Assim, o processo de luto é entendido pela psicanálise como um trabalho psíquico que implica em uma retirada do investimento que antes existia sobre aquilo que se foi. Em outras palavras, é preciso que, pouco a pouco, o sujeito desinvista a libido (ligação amorosa) que antes se o conectava ao objeto perdido. Esse processo de elaboração psíquica poderá assumir feições variadas. Por vezes, será preciso falar repetidamente sobre o que houve. Em outros casos ou momentos, pode ser importante silenciar.
Com a psicanálise, então, poderíamos pensar nos seguintes movimentos ao longo de um luto:
Constatação da perda: O primeiro e mais doloroso movimento seria este - a aceitação da realidade da perda. O Eu se agarra ao objeto, negando a realidade, a qual, por sua vez, segue mostrando que o objeto já se foi.
Retirada da libido: O Eu, aos poucos, confronta lembranças, afetos e expectativas ligadas ao objeto perdido. Isso abre caminho para que o sujeito possa ir “desligando” partes da energia amorosa que ali estava presente.
Reinvestimento: À medida que a libido é removida do objeto perdido, ela se disponibiliza, podendo ser reinvestida em novos objetos, novos laços e novos projetos de vida. É o momento em que o sujeito, sem esquecer do que foi perdido, consegue olhar para o futuro e retomar um movimento desejante.
Atravessando o luto

Ainda que possamos pensar no luto por meio de teorias como a descrita acima, é necessário lembrar do aspecto absolutamente singular de cada perda. Mais do que oferecer uma espécie de manual com fases a serem cumpridas, cabe ao psicanalista o oferecimento de um espaço de escuta e de elaboração para esta dor que, por vezes, beira o incompreensível.
No consultório, portanto, a pessoa enlutada é convidada a falar sobre o que perdeu: falar de sua relação com o objeto perdido e sobre sua ausência. Este espaço de escuta empático organizado pela técnica da associação livre permite que as lembranças e afetos (muitas vezes conflituosos) ligados ao objeto perdido possam ser expressados e elaborados. Colocar o luto em palavras é simbolizar a perda vivida e trabalhar para que o objeto perdido possa, aos poucos, ser internalizado de uma forma diferente. O sujeito, com isso, pode desconectar-se de tal objeto sem necessariamente destruí-lo e nem se destruir.
Embora doloroso, o luto pode ser um processo estruturante. É pela dor da perda que o sujeito se confronta com sua finitude e com a importância de seus laços. Nesse sentido, atravessar o luto pode ser transformador, dando ao sujeito uma capacidade nova para o amor e para a vida.


