Quando levar uma criança ao psicólogo? Seis perguntas que os pais fazem antes
Quase nenhuma família liga para um psicólogo ou psicanalista na semana em que suas preocupações com um filho ou filha começaram. Em geral, entre o primeiro sinal de que algo não vai bem e a primeira mensagem buscando ajuda profissional passam-se meses, quando não anos. Esse intervalo raramente indica descuido. Na verdade, a espera deve-se, entre outras coisas, às dúvidas, as quais, via de regra, são sempre mais ou menos as mesmas.
O que segue são seis perguntas sintetizando as questões que mais aparecem, cada uma delas respondida com a maior transparência possível. Vale destacar que, para muitas dessas perguntas, a resposta depende de uma série de fatores, dentre os quais a idade da criança é um dos principais. Nesse sentido, vale fazer a leitura com o seu filho ou parente em mente, e não pensando nas crianças em geral.
"Meu filho não é novo demais para fazer terapia?"
Para essa pergunta, a resposta tende a ser não. E acrescento que há uma inversão importante aqui: quanto mais cedo a intervenção, mais curto pode ser o trabalho.

Para os mais pequenos, o atendimento se dá, em grande parte, com os cuidadores e na observação da relação entre eles e a criança. Não se pede a uma criança de dois anos que fale sobre o que sente; observa-se como ela come, dorme, se separa, brinca, etc. Em casos assim, podemos dizer que a maior parte do trabalho se dá com quem cuida dela. Intervenções em famílias nessa faixa (bebês e crianças de 2 ou até 3 anos) costumam produzir mudanças rápidas, porque quase nada ainda está consolidado.
A partir dos quatro anos, o atendimento diretamente com a criança é muito mais possível e tende a ser produtivo. A criança já dispõe de linguagem suficiente para sustentar um espaço próprio, e o que ela não consegue dizer aparece nas invenções, brincadeiras, jogos e no faz-de-conta.
Portanto, pode ser um engano esperar que a criança fique "velha o bastante para conversar". Assim, com uma criança na faixa dos onze ou doze anos, o trabalho pode ocorrer um pouco mais vagarosamente, até mesmo pelo fato de que nessa idade começa-se a instalar uma postura mais reservada típica da pré-adolescência.
"Isso não passa com o tempo?"
Não há dúvidas: há casos em que o tempo faz o seu trabalho e o problema passa. Por vezes, a dinâmica, de fato, é essa: os sintomas da criança surgem, cumprem alguma função e desaparecem quando o que os motivava se resolve. Nesse sentido, podemos dizer que tratar tudo é quase tão ruim quanto não tratar nada.

Desse modo, algo que nos informa quanto à transitoriedade ou não de uma questão não é tanto o comportamento em si, mas sim sua relação com o tempo. Fazer xixi na cama aos três ou quatro anos é algo relativamente esperado; aos oito, entretanto, a conversa se modifica. Chorar na porta da escola no início do ano letivo pode ser visto como comportamento normal, mas se isso perdurar por meses a fio, um sinal de atenção se levanta. No caso do medo do escuro, podemos ver isso como típico da idade quando a criança tem 5 anos; aos dez, contudo, o medo pode indicar alguma coisa, sobretudo se isso impede a criança de dormir fora de casa. Da mesma forma, birras aos dois anos e meio são o próprio trabalho psíquico daquele momento; aos oito, o mesmo comportamento significa que algo não está avançando.
Raciocínio similar pode ser aplicado para o que se espera que a criança já esteja fazendo. Uma criança de sete anos que ainda não consegue ficar na casa de um parente, ou que não tem nenhum amigo, está deixando de fazer coisas próprias da idade — e essa lacuna pode informar mais do que qualquer sintoma isolado.
A esses pontos, podemos acrescentar um marcador que independe de tempo ou idade: o quanto a dificuldade em questão está custando à criança. Assim, quando, por exemplo, a criança começa a abrir mão de coisas de que gostava em função de um comportamento, podemos dizer que aquilo não mais é mera característica da criança ou de sua fase.
"A criança vai ficar rotulada?"
Essa é uma preocupação legítima que merece consideração. Dois pontos nos auxiliam a esboçar uma resposta para esse medo de estigmatização. Primeiro, deve-se lembrar que em um atendimento psicanalítico infantil, a questão (tão em voga) dos diagnósticos psiquiátricos fica em segundo plano. Privilegia-se, desse modo, um olhar para a criança em sua singularidade. Assim, antes de enquadrar a criança em um quadro típico, importa-nos ouvi-la e investigar o que se passa ali. Evidente que, nos casos em que uma avaliação específica se faz necessária, isso é discutido com os pais no tempo oportuno.

Em segundo lugar, deve-se lembrar que o processo de rotulação se dá, no geral, antes mesmo de a criança pisar no consultório. Escola, família e cuidadores fazem isso naturalmente: buscam nome para o que destoa. Talvez não se fale em diagnósticos, mas em termos como "criança difícil", "menino que não para" e assim por diante. Com o tempo, a própria criança assimila o que escuta e passa a se ver dessa forma. Nesse sentido, o rótulo não é decorrente do tratamento, mas sim uma parte do que a terapia buscará desfazer.
"Será que errei na criação do meu filho?"
Essa difícil pergunta (poucas vezes feita em voz alta) é, talvez, uma das que atrasam a busca por ajuda. E é preciso dizer que houve momentos em que a própria psicologia e psicanálise contribuíram para essa culpabilização, sobretudo em relação às mães.
Hoje, contudo, é necessário matizarmos o que talvez tenha sido dito outrora a respeito do lugar dos pais no adoecimento dos filhos. É certo que aquilo que os pais fazem tem efeito nas crianças. Negá-lo seria tolice, e o próprio efeito do trabalho com a família em psicoterapias infantis é revelador dessa influência. A influência dos pais, entretanto, não é capaz de tudo explicar. Sabemos, por exemplo, que crianças criadas do mesmo modo, na mesma casa, tomam rumos diferentes, cada uma fazendo algo distinto com aquilo que recebe desse outro primordial.

Na prática, isso significa que o trabalho com os pais não é uma revisão do passado em busca do momento em que erramos. A conversa com os pais, nesse sentido, é muito mais sobre o que é possível ser feito agora. Com o andamento do tratamento, o modo como os pais leem a criança tende a mudar, assim como se modifica a maneira da família responder à dinâmica com o filho. A culpa pode até existir, mas a boa nova é que o trabalho ampliado com pais e cuidadores tende a impactar os filhos positivamente.
"E se ela não quiser fazer terapia?"
Mais uma vez o fator idade importa. Para os pequenos (entre quatro e seis anos), a recusa a ser atendido é menos comum, já que uma sala com brinquedos e acolhimento tende a ser convidativa. Pode haver dificuldade no momento de separação dos pais na porta, o que é contornável.
Numa faixa um pouco acima (dos sete aos nove, aproximadamente), pode haver resistência a depender de como a proposta é apresentada. Uma criança que entende que está indo ao psicanalista porque está sendo malvada ou porque precisa de conserto costuma ficar na defensiva. Nesse sentido, talvez seja melhor uma abordagem verdadeira e direta: dizer, por exemplo, que existe um lugar onde ela pode brincar e falar sobre o que anda difícil.
Para as crianças mais velhas (dos dez em diante), a recusa ao tratamento deve ser levada a sério e negociada. Arrastar um pré-adolescente para análise tende a ser contraproducente. Havendo dificuldade, vale tentar combinar uma primeira ida, sem compromisso com uma segunda visita ou com um prosseguimento regular.
"Quanto tempo dura a análise com crianças?"

Responder com um número antes de conhecer a criança seria mera especulação. Ainda assim, alguns apontamentos são possíveis. Dificuldades ligadas a acontecimentos identificáveis — uma perda, uma mudança, o nascimento de um irmão, uma separação — podem se resolver em meses. Outros quadros pedem mais tempo, como naqueles que se relacionam ao modo da criança funcionar no decorrer da vida.
Em termos de frequência, a periodicidade de duas sessões por semana é interessante, mas há também a possibilidade de trabalharmos com um encontro a cada semana. Quanto ao encerramento do tratamento, a melhoria (ou não) da queixa inicial é apenas um dentre outros fatores a serem considerados. Nesse ponto, o diálogo entre analista e família tem, novamente, importância.
André Gomes Pacheco - Psicanalista e Psicólogo | CRP 06/108809
Graduado em Psicologia (USP.) Mestre em Saúde Coletiva (Unicamp).
Atendimento presencial em Perdizes (São Paulo) e on-line.
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