Vício em celular: por que você não consegue parar de olhar a tela
- André Pacheco
- há 3 dias
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Há algo de curioso no uso que temos feito do celular. Isso porque, muitas vezes, não pegamos o aparelho porque buscamos alguma coisa específica. Parece que vamos atrás do telefone porque algo nos empurra a fazê-lo. E, uma vez na tela, ficamos; rolamos o feed sem parar, passando de um conteúdo para o outro. Por vezes, nada ali nos interessa de fato. E quando finalmente largamos o celular, não sentimos que o tempo foi bem investido. No geral, o que fica é um cansaço, uma vaga irritabilidade e a sensação de estar agindo no automático, sem intenção.
Penso que um cenário assim (cada vez mais comum e familiar) merece a nossa atenção. Não porque usar o celular seja algo inerentemente errado, evidentemente. Mas temos que admitir que a experiência de seguir fazendo algo repetidamente sem que isso produza em nós uma verdadeira satisfação não é banal. Vejamos, nesse post, o que essa experiência pode falar sobre nós mesmos.
Uma satisfação que não satisfaz

Talvez devamos considerar que aquilo que os celulares estão nos oferecendo não é exatamente prazer. Fosse assim, chegaríamos a alguma satisfação. Em dado momento, estaríamos saciados e pararíamos.
Dito isso, parece ser outra coisa que o uso do smartphone nos proporciona. Talvez algo de uma incitação insistente; uma espécie de estímulo continuado que fica sempre aquém da satisfação e nos move a pedir mais. A cada vídeo assistido, ficamos com a promessa de que o próximo será mais interessante. A cada notificação verificada, ficamos na expectativa pela próxima. E assim continuamos rolando o feed, olhos na tela, sem parar. Mas a falta de finalização não é parece acidental. Pelo contrário: sabemos que as redes sociais e os aparelhos telefônicos são desenhados para isso. Resulta que ficamos em um circuito de difícil saída.
A psicanálise pensaria esse tipo de circuito de um modo específico. É como se ele instaurasse um modo de satisfação que, em verdade, não satisfaz. A experiência é sempre incompleta e, até por isso, ficamos enredados, presos à expectativa de resolução. Há, portanto, uma satisfação que se alimenta de sua própria insuficiência - quanto mais se consome, mais se precisa consumir. A constante insatisfação produz mais vontade de consumir em vez de se sinalizar que é hora de buscar alguma outra coisa. O motor desse funcionamento em loop não é, portanto, o prazer obtido; é a promessa de que o próximo clique, a próxima rolagem ou o próximo vídeo irão enfim entregar aquilo que os anteriores não entregaram.
A lógica que estamos descrevendo (e que poderia ser associada à noção psicanalítica de gozo) não é perceptível apenas nesse uso que fazemos dos celulares. De fato, em diversas formas de compulsão, um funcionamento análogo pode aparecer. O celular, entretanto, por conta de sua acessibilidade, portabilidade e disponibilidade parece ter universalizado essa experiência compulsiva. O smartphone está sempre ali: no bolso, nas mãos, no trabalho, no lazer. Sempre ali, pronto para oferecer um pouco mais do que nunca é suficiente.
O intervalo que desapareceu

Há outro aspecto que deve ser considerado para essa discussão. Pois o celular não apenas oferece estímulo: ele também elimina os intervalos. Assim, momentos de espera, de tédio e de não fazer nada, que antes faziam parte da vida cotidiana, foram preenchidos. A fila, o trajeto, a sala de espera, os minutos antes de dormir; tudo isso se tornou tempo de tela.
Aos poucos, parecemos nos esquecer que tais intervalos nem sempre eram exatamente vazios. Por vezes, eram os momentos em que surgia um pensamento inesperado, uma lembrança, uma ideia ou mesmo uma angústia que precisava ser sentida. E ao preencher sistematicamente cada brecha de silêncio com um estímulo, isso se perde. Há algo que aparece somente quando não estamos ocupados por nada.
O fato de os dispositivos modernos ocuparem com tanta facilidade toda e qualquer brecha em nosso cotidiano parece indicar que algo nesse espaço em aberto pode incomodar. Nesse sentido, o aparelho telefônico entra como elemento de proteção a eventuais sentimentos conflituosos como a solidão, a tristeza ou tédio. A tecnologia, nesse sentido, entra como uma forma de companhia que distrai. Difícil é a constatação de que, na maior parte das vezes, ela, em vez de conectar, produz desconexão. E isso tanto com os outros, quanto consigo próprio.
O que o uso compulsivo do celular evita?
Na clínica, o uso excessivo de telas dificilmente é uma queixa (ainda que o comportamento, em si, seja extremamente comum). Via de regra, o paciente fala da ansiedade, da insônia, da dificuldade em se concentrar, das relações que não vão bem e assim por diante. O celular e as demais tecnologias da tela são discretas; quando aparecem, é a posteriori, quase de passagem. Mas há momentos em que isso vem de modo explícito: "Fiquei horas no YouTube quando cheguei em casa"; "Não consigo trabalhar. Fico direto no Instagram"; "Não sei porque, mas fico olhando o celular o tempo todo".
Nesses casos, interessa pensar não tanto no comportamento em si, já que não cabe ao analista prescrever tempo de tela. Mas é possível nos interrogarmos quanto à função que o uso da tecnologia (o celular, o videogame, a rede social) cumpre para aquele sujeito. Em poucas palavras, a tela está no lugar de quê?
Não há uma resposta genérica ou universal para a pergunta acima. Assim, uma pessoa pode usar a tela como tentativa de aplacar a solidão. Outra, evita o confronto com um trabalho que perdeu o sentido. E outro caso pode fazer uso da tecnologia como evitação ao silêncio existente em uma casa vazia ou à presença de alguém com quem já não se sabe mais conversar.

Se, enfim, for para tentarmos pensar em um elemento em comum, talvez sejamos forçados a pensar, novamente, na função de preenchimento de lacunas. Enquanto o preenchimento funciona (mesmo que mal), o sujeito não se pergunta quanto ao que há naquele espaço.
A psicanálise não propõe que as pessoas abandonem seus smartphones. Em tempos como os de hoje, isso não teria cabimento. No entanto, talvez seja possível e necessário nos perguntarmos sobre os motivos pelos quais a ausência do aparelho nos soa, por vezes, tão insuportável. E é possível abordar esse questionamento olhando não tanto para o celular, mas sim para o sujeito que o utiliza.
Uma cultura que não suporta a falta
Por outro lado, seria ingênuo de nossa parte tratar o uso compulsivo de telas como problema individual. Como sabemos, nossa cultura desvaloriza de forma sistemática tudo aquilo que o celular elimina: a lentidão, o silêncio, o tédio, a espera, a falta. Hoje, tudo deve ser imediato e toda lacuna é sinal de falha. Em sua forma contemporânea, o celular cai como uma luva e faz parecer que, afinal, toda falta pode ser preenchida, toda dúvida, sanada, todo caminho, descoberto.
Em sua melhor forma, a psicanálise resiste e opera na contramão dessa lógica. Novamente, vale frisar que não se trata de negar os avanços tecnológicos, que sim, trazem benesses inúmeras. Mas, por mais arcaica que soe, a psicanálise pode nos lembrar que falta é estrutural, ou seja, está e sempre aí, não sendo um defeito que manda correção. Pelo contrário, a falta (o intervalo, o espaço vazio) é a condição para que o desejo exista, pois só desejamos a partir de uma abertura, a partir daquilo que não temos.
Se, como o celular faz parecer, tudo está disponível a todo momento, o desejo se esvazia. E não porque tenhamos tudo, mas sim porque a promessa de que tudo está na palma da mão (a um clique de distância) torna temerosamente sofrível a experiência de não ter e a experiência do vazio.
Assim, talvez o mais perturbador do vício em celular não seja o tempo perdido, mas sim, o que seu uso revela: nossa dificuldade em sustentar a falta e, com isso, a possibilidade de desejar. Desejo: justo aquilo que faz de nós humanos (faltosos).
André Gomes Pacheco — Psicanalista e Psicólogo | CRP 06/108809
Graduado em Psicologia pela USP. Mestre em Saúde Coletiva pela Unicamp.
Atendimento presencial em Perdizes (São Paulo) e online.


