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Psicanálise ou TCC: qual a diferença e como escolher

  • Foto do escritor: André Pacheco
    André Pacheco
  • 4 de abr.
  • 6 min de leitura

Quem decide procurar um psicólogo logo se depara com a necessidade de fazer uma escolha talvez inesperada, que poderia ser traduzida pela seguinte pergunta: que tipo de abordagem devo buscar? E, por vezes, essa pesquisa acaba por se afunilar e apontar para um embate final entre a psicanálise e a terapia cognitivo-comportamental (TCC). As duas formas de tratamento se propõem a acolher o sofrimento psíquico. No entanto, podemos afirmar que suas origens, métodos e pressupostos são significativamente diferentes.


Em um tabuleiro de xadrez, dois cavalos de cores diferentes se encaram.

Com frequência a comparação entre essas linhas revela um tom de disputa que dá a entender que seria preciso elegermos um vencedor. Mas dado que as propostas dessas abordagens são muito distintas e que cada uma delas responde a perguntas específicas, não é necessário adotarmos essa perspectiva confrontativa. Assim sendo, mais do que decidir pela “melhor linha” em abstrato, é interessante entendermos quais são, afinal, as diferenças entre essas abordagens.


O que a TCC propõe


A terapia cognitivo-comportamental parte de uma premissa clara: o sofrimento psíquico está ligado a padrões de pensamento e comportamento que podem ser identificados, questionados e modificados. Assim, se alguém sofre, por exemplo, de ansiedade, a TCC irá ajudá-lo a reconhecer quais são os pensamentos automáticos que alimentariam tal sentimento (pensamentos como: "vai dar tudo errado", "não sou capaz" etc). Em seguido, a terapia buscaria avaliar se esses pensamentos correspondem ou não à realidade, substituindo-os, enfim, por formas de pensar que seriam mais funcionais.


Outra característica é que o tratamento, geralmente, apresenta-se de modo bem estruturado, ou seja: há metas definidas, técnicas específicas, tarefas a serem feitas e um horizonte temporal mais ou menos delimitado. Além disso, nas sessões, o terapeuta cognitivo-comportamental ocupa um papel mais ativo; ele orienta, oferece ferramentas e faz propostas de exercícios.

Dois esgrimistas se encaram. Eles estão sem as máscaras e com as espadas apoiadas no próprio ombro.

A eficácia da TCC é bem documentada para diversos quadros, em especial as fobias, transtorno de pânico, TOC e alguns quadros de depressão e ansiedade. Em certo sentido, devemos admitir que a TCC faz o que se propõe a fazer, e, normalmente, com seriedade.


O que a psicanálise propõe


A psicanálise, por sua vez, parte de pressupostos radicalmente diferentes. Para o psicanalista, o sofrimento não se reduz a um erro de pensamento que possa ser corrigido por vias racionais. Isso porque haveria uma dimensão inconsciente que participa daquilo que sentimos, escolhemos e repetimos. Sendo inconsciente, essa dimensão não é acessível pela reflexão deliberada. Na realidade, ela se manifestaria em formas indiretas: nos sonhos, nos atos falhos, nos sintomas que persistem mesmo que tentemos superá-los e nas repetições (muitas vezes imperceptíveis) que seguem ocorrendo ao longo da vida sem motivos aparentes.


Além disso, o tratamento psicanalítico não se organiza por meio de metas ou técnicas específicas. Sua estruturação acontece de outra maneira. Assim, o paciente é convidado a falar em associação livre e o analista escuta atentamente não tanto o conteúdo manifesto do discurso, mas sim os aspectos menos vísiveis da fala - o que escapa, o que se repete, o que tropeça. Diante do que surge, o psicanalista dificilmente dará conselhos ou orientações. Em lugar disso, a ele oferece interpretações e maneja o vínculo com o paciente. Com esse enquadre, a proposta é criar as condições para que algo de novo surja, algo que, por vezes, o próprio paciente não imaginava que poderia vir dele.


Outro aspecto singular à psicanálise é que ela, em geral, não coloca um prazo pré-definido para o tratamento. Aqui, o que está em jogo não é, necessariamente, a eliminação de um sintoma pontual, mas sim a produção de uma transformação na relação que o sujeito tem consigo mesmo e com aquilo que o determina sem que ele saiba. E o curioso é que, por mais que o foco da psicanálise não seja a remissão imediata dos sintomas, não é incomum que, no decorrer do tratamento, estes sintomas deixem de aparecer como apareciam no início.


Duas perguntas diferentes


Podemos dizer que por trás dessas diferenças técnicas reside uma distinção mais fundamental em torno da pergunta que cada abordagem teórica coloca diante do sofrimento humano.


Em uma foto em preto e branco, dois jovens de óculos e que aparentam ser estudantes vestem luvas e boxe e fazem poses de força.

De um lado, a pergunta que a TCC coloca poderia ser resumida ao seguinte enunciado: como posso parar de sofrer com isso?


Por outro lado, a pergunta advinda da psicanálise poderia ser traduzida em termos como: por que isso me faz sofrer? O que esse sofrimento diz sobre mim; sobre meu desejo, minha história, sobre aquilo que insiste na minha vida sem que eu entenda?


Os questionamentos oriundos de ambas abordagens são legítimos mas parecem levar a caminhos distintos. Grosso modo, uma abordagem tenta toma o problema como algo a ser resolvido – e com isso, irá buscar uma solução. A segunda linha, por outro, lado, toma o problema em sua dimensão de enigma. A partir disso, busca-se entender o que tal problema expressa.


Em outras palavras, podemos dizer que a TCC visa o alívio. A psicanálise não ignora a importância do alívio ao sofrimento; no entanto, ela age com cautela -  desconfia que o alívio obtido sem compreensão de causa há de ser provisório. Isso porque um sintoma que desaparece sem que entendamos o que ele articulava pode retornar sob outra forma. Forma que, por vezes, é ainda mais sofrida.


O que está em jogo na escolha


Parece-me que no momento de fazer uma escolha é indispensável levar em consideração quem é que está escolhendo. Assim, frente a uma pergunta como: "devo fazer psicanálise ou TCC?", podemos devolver outra: “o que você está buscando?”.


Com isso, podemos dizer que quando alguém procura ferramentas práticas para lidar com um problema específico (como crises de pânico, fobias ou uma insônia situacional) e prefere um tratamento que, em tese, é mais curto e estruturado, a TCC pode, de fato, ser um caminho adequado.


Mas para casos em que a pessoa sente que sua vida é permeada por problemas repetitivos de causa obscura, assim como para aqueles que querem buscar um saber que vai além da mera gestão de comportamentos, a psicanálise, certamente, pode ser a via mais interessante, oferecendo algo que dificilmente será encontrado em outros lugares.


Do mesmo modo, há casos de pessoas que já passaram por tratamentos mais focados na remissão rápida dos sintomas (por vezes, inclusive, com bons resultados) e que, mesmo assim, sentem que há algo que ainda não foi elaborado, algo ainda não dito ou não escutado. São situações em que algum alívio pode até ter vindo, mas permanece um resto; as crises cessaram, mas continua a sensação (por vezes, angustiante) de que elementos fundamentais sobre si permanecem na escuridão. Casos assim costumam chegar à psicanálise não necessariamente porque o tratamento anterior tenha “falhado”, mas porque o que buscam agora é de outra ordem.


Uma nota sobre evidências


Cabe aqui um comentário sobre a ideia muitas vezes veiculada de que a Terapia Cognitivo-Comportamental se diferenciaria de outras linhas psicoterapêuticas por ser mais científica e “baseada em evidências”.

Um olho direcionado para a câmera por meio de uma lenta de aumento. O olhar é inquiridor.

Por um lado, podemos dizer que há, realmente, um acúmulo considerável de estudos científicos realizados dentro da perspectiva da TCC. E por mais que a psicanálise também produza muita pesquisa, é verdade que muitas vezes o faz em um padrão daqueles que regem disciplinas como a medicina. O que se deve tanto à especificidade epistemológica da psicanálise quanto à sua tendência a sempre enfatizar o singular de cada caso clínico.


Não obstante o que foi exposto acima, é necessário considerar que algumas meta-análises produzidas recentemente demonstraram que, para muitos quadros, a eficácia da TCC é equivalente a das chamadas psicoterapias psicodinâmicas (dentro das quais podemos incluir a psicanálise) (1). Ademais, vale recordar o estudo de 2010 publicado pela American Pyschological Association (2) que trouxe evidências de que os efeitos benéficos das terapias psicodinâmicas perdurariam por mais tempo do que os oriundos da TCC após o encerramento de um tratamento. Isso nos leva a pensar, inclusive, que a natureza da mudança produzida por cada linha não é necessariamente a mesma.


Escolher é legítimo


Não há, enfim, uma resposta universal para uma pergunta em torno de qual seria a melhor abordagem psi. Mas, existe, sem dúvidas, a possibilidade de cada pessoa perguntar-se quanto ao que busca, tomando sua decisão a partir desse questionamento.


Do lugar de onde falo, posso dizer que a psicanálise está aberta a qualquer um que intui que há, em si, algo que não se resolverá por conselhos, técnicas ou força de vontade. Talvez, aquilo que em nós se repete, insiste e escapa ao controle esteja pedindo não por correção, mas sim por escuta.


Referências:

(1): Steinert et al. Psychodynamic Therapy: As Efficacious as Other Empirically Supported Treatments? A Meta-Analysis Testing Equivalence of Outcomes. American Journal of Psychiatry, Oct 1;174(10):943-953. 2017.

(2): Shedler, Jonathan. The Efficacy of Psychodynamic Psychotherapy. American Psychologist, V. 62, No. 02, 2010.



André Gomes Pacheco, Psicanalista e Psicólogo | CRP 06/108809.

Graduado em Psicologia pela USP. Mestre em Saúde Coletiva pela Unicamp.

Atendimento presencial em Perdizes (São Paulo) e online.

 
 
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