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A adolescência como segundo nascimento

  • Foto do escritor: André Pacheco
    André Pacheco
  • há 4 horas
  • 4 min de leitura
Pessoa de moletom azul vista de costas caminhando por túnel escuro em direção à saída muito iluminada.

Costuma-se falar da adolescência como uma fase, momento passageiro, aos moldes de uma estação do ano. Mas quem passa por ela ou convive de perto com alguém que a vive, sabe que a palavra "fase" é insuficiente, não dando conta de tudo que está em jogo. Mais do que uma passagem de tempo, a adolescência convoca o sujeito a uma espécie de novo nascimento. Nele, o adolescente ocupa um lugar fundamental, já que ele mesmo é quem deverá se separar da criança que foi e inventar, aos poucos, a pessoa que ainda não é.


Um corpo em transformação


A passagem costuma se iniciar pelo corpo. Da noite para o dia, ele se transforma, sem pedir licença. Cresce, ganha formas novas e passa a produzir sensações desconhecidas. No espelho aparece uma imagem que o adolescente ainda não reconhece como própria. Não é pouca coisa; há uma casa nova, em constante mudança, e o adolescente precisa passar a habitá-la ao mesmo tempo em que lida com os olhares, comentários e comparações que vêm de fora. O modo como o outro olha para esse adolescente muda e os impactos disso em sua subjetividade nem sempre ficam claros.


A esse estranhamento do corpo soma-se um estranhamento de outra espécie, na medida em que o adolescente cada vez mais estranha-se a si mesmo. Pois aquilo que antes o definia — os gostos, as certezas, o lugar dentro de casa — parece não mais fazer sentido. O que virá no lugar das antigas referências também é incerto. Daí a instabilidade que pode assustar quem está em volta; o humor oscila, as opiniões se contradizem de uma semana para a outra, surgem paixões intensas que logo são abandonadas e assim por diante. Nada disso indica falha de caráter. Mais do que isso, estamos diante de alguém experimentando versões de si, tateando no escuro na exploração de desejos e identidades.


Quatro pessoas sentadas em degraus de madeira, só pernas e tênis visíveis, em clima casual e descontraído.

O luto dos pais


Para quem está por perto (família, especialmente) o processo da adolescência pode ser vivido como uma espécie de perda, pois o filho que os pais conheciam parece ter ido embora. Em seu lugar, surge essa figura estranha e arredia que fecha a porta do quarto e responde por monossílabos. Assim, é comum que mães e pais sintam algo próximo a um luto. Não apenas o luto pela criança que se foi, mas também o luto por aquilo que se projetava para aquele(a) menino(a).


Também não é raro que interpretemos o afastamento dos filhos como rejeição, o que nem sempre é o caso. Separar-se é, justamente, a tarefa da adolescência. O adolescente empurra as antigas referências para longe. Entretanto, não o faz porque sua família é dispensável, mas pela necessidade de ter espaço para construir algo que seja seu. Mais do que uma recusa, a "porta fechada" funcionaria como proteção de um canteiro em obras.


As turbulências enquanto parte da viagem


Entender tais pontos modifica nosso modo de acompanhar um adolescente. Boa parte da turbulência desse momento não é sinal de que vai mal, mas o próprio trabalho de crescer em operação. Confundir uma coisa com a outra pode ser custoso: vivemos em um tempo em que qualquer oscilação de humor, retraimento ou excesso tendem a ser rapidamente traduzidos em diagnóstico, como se toda dor de um adolescente fosse a manifestação de um transtorno a ser corrigido. Sabemos, contudo que não é toda tristeza que deve ser lida como depressão, assim como nem toda inquietação é hiperatividade e nem toda recusa é oposição patológica. Reduzir, portanto, a travessia adolescente a um rótulo pode calar algo que poderia ser lido e ouvido sob outro prisma.


Duas estudantes desenham em sala de aula iluminada, cercadas por maquetes de papel e lápis coloridos, em clima concentrado.

Sustentar esses pontos, contudo, não significa minimizar o sofrimento real sentido por parte dos jovens. Nesse sentido, há o risco de um outro erro, simétrico ao descrito há pouco. Nesse caso, o engano reside em tratar tudo como "coisa da idade", não enxergando as situações em que um adolescente está, de fato, afundando. Em casos desses tipo, o tempo entra como elemento decisivo, nos previnindo de decidir de antemão se o que acontece é grave ou não. Cabe, assim sendo, prestar atenção à direção desse movimento. A adolescência é feita de fechamentos e aberturas; o adolescente se recolhe e depois volta, se isola e depois se lança. Talvez o que mais preocupe é quando essa dinâmica estanca e se perde o aspecto de alternância, ou seja: quando um fechamento não mais se abre, quando o sofrimento deixa de circular e passa a se repetir sempre do mesmo modo ou quando aquilo que era passagem vira impasse. Em outras palavras, a travessia emperra, o que pode significar uma maior necessidade de atenção.


Adolescentes em análise


Há uma série de cenários em que uma psicanálise pode contribuir com a adolescência. Certamente, o objetivo de uma psicanálise não se confunde com dirigir ou corrigir o adolescente, entregando-o de volta à família "consertado". Mais do que isso, a psicanálise oferece ao adolescente um espaço de fala e escuta que ele pode ocupar de maneira autêntica, algo que não se encontra facilmente nesse momento. A análise, nesse sentido, é permite a fala sem a preocupação com avaliações e julgamentos.


Muito do que atormenta um adolescente é disforme, sem nome, como uma massa confusa de sensações, medos e desejos que ele mesmo não consegue colocar direito em palavras. O trabalho analítico começa exatamente aí: dá passagem, aos poucos, para que algo possa ser dito e, por conseguinte, elaborado. Nossa aposta é que aquilo que encontra palavras pode ser simbolizado, deixando, desse modo, de precisar ser atuado no corpo, nas brigas ou nos riscos desnecessários.


Jovem de camiseta azul, de perfil e braços cruzados, em campo ao ar livre com árvores desfocadas ao fundo.

Tal como o primeiro, esse segundo nascimento raramente se faz sozinho. No primeiro nascimento, alguém nos segurou, nos deu um nome, sustentou nossa chegada. No segundo, o adolescente precisa, sim, separar-se, mas ainda há a necessidade de presenças que resistam ao distanciamento e ao embate sem desabar e sem retaliar. A tarefa dos adultos ao redor não é poupar o adolescente da travessia, o que seria impossível, e sim continuar de pé enquanto ele atravessa: disponíveis sem invadir, firmes sem sufocar. Um analista pode ser uma dessas presenças; alguém de fora do círculo familiar, que escuta sem julgar e que acredita que ali, no meio de todo o tumulto, há um sujeito em formação.



André Gomes Pacheco — Psicanalista e Psicólogo | CRP 06/108809 Graduado em Psicologia pela USP. Mestre em Saúde Coletiva pela Unicamp. Atendimento presencial em Perdizes (São Paulo) e online. Para agendamentos, entre em contato pelo WhatsApp.

 
 
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