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Adolescência: o que é da idade e o que preocupa

Foto do escritor: André Pacheco
André Pacheco
7 de ago.
5 min de leitura

Atualizado: 9 de ago.

Pessoa de moletom azul vista de costas caminhando por túnel escuro em direção à saída muito iluminada.

Costuma-se falar da adolescência como uma fase, momento passageiro, aos moldes de uma estação do ano. Mas quem passa por ela ou convive de perto com um adolescente, sabe que a palavra "fase" é insuficiente, não dando conta de tudo que está em jogo. Mais do que uma passagem de tempo, a adolescência convoca o sujeito a uma espécie de novo nascimento. Neste, o jovem ocupa um lugar fundamental, já que ele mesmo é quem deverá se separar da criança que foi e inventar, aos poucos, a pessoa que ainda não é.


O impacto das mudanças no corpo na adolescência


A mudança costuma se iniciar pelo corpo. Da noite para o dia, ele se transforma, sem pedir licença. Cresce, ganha formas novas e passa a produzir sensações desconhecidas. No espelho aparece uma imagem que o adolescente ainda não reconhece como própria. Não é pouca coisa; a casa é nova, em constante mudança, e o adolescente precisa passar a habitá-la ao mesmo tempo em que lida com os olhares, comentários e comparações que vêm de fora. O modo como os outros olham para esse adolescente se altera radicalmente e os impactos disso em sua subjetividade nem sempre ficam claros.


A esse estranhamento do corpo soma-se mais um de outra espécie, na medida em que o próprio adolescente deixa de se reconhecer naquilo que antes o definia. Os gostos, as certezas, o lugar dentro de casa: tudo parece não mais fazer sentido. O que virá no lugar das antigas referências ainda é incerto. Daí a instabilidade que pode assustar quem está em volta; o humor oscila, as opiniões se contradizem de uma semana para a outra, surgem paixões intensas que logo são abandonadas e assim por diante. Nada disso indica falha de caráter. Mais do que isso, estamos diante de alguém experimentando versões de si, tateando no escuro em uma exploração de desejos e identidades.


Quatro pessoas sentadas em degraus de madeira, só pernas e tênis visíveis, em clima casual e descontraído.

O luto dos pais quando o filho de fecha no quarto


Para quem está por perto (família, especialmente) o processo da adolescência pode ser vivido como uma espécie de perda, pois o filho que os pais conheciam parece ter ido embora. Em seu lugar, surge essa figura desconhecida e esquiva, que fecha a porta do quarto e começa a falar por monossílabos. Nesse novo contexto, é comum que mães e pais sintam algo próximo a um luto. Não apenas em função da criança que parece ter ido embora, mas também o luto por aquilo que a família projetava para aquele(a) menino(a) e que agora não parece corresponder com tais ideais.


Também não é raro que se interprete o afastamento dos filhos como rejeição. Nem sempre é o caso: separar-se é, justamente, a tarefa da adolescência. Em sua jornada, o adolescente empurra antigas referências para longe. E não faz isso porque sua família é dispensável ou desinteressante, mas pela necessidade de ter espaço para construir algo que será seu. Mais do que uma recusa, a "porta fechada" funcionaria, então, como proteção para um canteiro de obras.


As turbulências enquanto parte da viagem


Entender esses pontos modifica nosso modo de acompanhar um adolescente. Boa parte da turbulência desse momento não é sinal de que algo vai mal, mas o próprio trabalho de crescer em operação. Confundir uma coisa com a outra pode ser custoso: vivemos em um tempo em que qualquer oscilação de humor, retraimento ou excesso tendem a ser rapidamente traduzidos em diagnóstico, como se toda dor de um adolescente fosse a manifestação de um transtorno a ser corrigido. Sabemos, contudo, que não é toda tristeza que deve ser lida como depressão, assim como nem toda inquietação é hiperatividade e nem toda recusa é oposição patológica. Reduzir, portanto, a travessia adolescente a um rótulo pode calar algo que poderia ser lido e ouvido sob outro prisma.


Duas estudantes desenham em sala de aula iluminada, cercadas por maquetes de papel e lápis coloridos, em clima concentrado.

Sustentar essas ideias, contudo, não significa minimizar o sofrimento real sentido por parte dos jovens. Nesse sentido, há o risco de incorrer em outro erro, simétrico ao descrito há pouco. Nesse caso, o engano residiria em tratar tudo como "coisa da idade", não enxergando as situações em que um adolescente está, de fato, afundando. Em casos desse tipo, o tempo entra como elemento decisivo, nos prevenindo de decidir de antemão se o que acontece é grave ou não. Cabe, assim sendo, prestar atenção à direção do movimento. Explico: via de regra, a adolescência é feita de fechamentos e aberturas; o adolescente se recolhe e depois volta, se isola e depois se lança. Assim, talvez o que mais preocupe seja quando essa dinâmica estanca e perde o aspecto de alternância, ou seja: quando o que fechou não mais se abre, quando o sofrimento deixa de circular e passa a se repetir sempre do mesmo modo ou quando aquilo que era passagem vira impasse. Em outras palavras, a travessia emperrou, o que pode significar uma maior necessidade de atenção.


Como a psicanálise pode ajudar um adolescente

Quando os pais procuram um psicólogo ou psicanalista para um adolescente, costuma haver a expectativa de que o filho volte à família "consertado". O objetivo de uma análise não confunde com isso: não se trata de corrigir ou dirigir o adolescente. Não obstante, a terapia pode contribuir com a adolescência de diversos modos. Antes de mais nada, o analista oferece ao adolescente um espaço de fala e escuta que ele pode ocupar de maneira autêntica, algo que não se encontra facilmente em nosso momento histórico e social. A análise, nesse sentido, permite a emergência de uma fala sem tanta preocupação com avaliações e julgamentos.


Muito do que atormenta um adolescente é disforme, sem nome, como uma massa confusa de sensações, medos e desejos que ele mesmo não consegue colocar direito em palavras. O trabalho analítico começa exatamente aí: abre caminhos para que, aos poucos, algo singular possa ser dito e, por conseguinte, elaborado. Nossa aposta é que aquilo que encontra palavras pode ser simbolizado, deixando, desse modo, de precisar ser atuado no corpo, nas brigas ou nos riscos desnecessários.


Jovem de camiseta azul, de perfil e braços cruzados, em campo ao ar livre com árvores desfocadas ao fundo.

Tal como o primeiro, esse segundo nascimento pelo qual passa um adolescente raramente se faz sozinho. Lá no começo, alguém nos segurou, nos deu um nome, sustentou nossa chegada. No segundo tempo, o adolescente precisa separar-se; por outro lado, ainda há a necessidade de presenças que resistam ao distanciamento e aos embates sem desabar e sem retaliar. A tarefa dos adultos ao redor, nesse sentido, não é poupar o adolescente da travessia (o que seria impossível), mas continuar de pé enquanto ele a percorre. Adultos disponíveis sem invadir, firmes sem sufocar. Um psicanalista pode ser uma dessas presenças; alguém de fora do círculo familiar, que escuta sem julgar e que acredita que ali, no meio de todo o tumulto, há um sujeito em formação.



André Gomes Pacheco — Psicanalista e Psicólogo | CRP 06/108809 Graduado em Psicologia pela USP. Mestre em Saúde Coletiva pela Unicamp. Atendimento presencial em Perdizes (São Paulo) e online. Para agendamentos, entre em contato pelo WhatsApp.

 
 
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