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O que se pode dizer em uma psicanálise?

  • Foto do escritor: André Pacheco
    André Pacheco
  • há 12 horas
  • 6 min de leitura

Em uma sessão de psicanálise, podemos falar sobre qualquer coisa. Talvez isso inclua especialmente aquilo que não encontra lugar para ser expressado em nenhum outro espaço de nossas vidas.


Pintura de Magritte. Um homem de paletó olha para um espelho e, em vez de ver o próprio rosto, vê sua nuca e costas.
René Magritte, La Reproduction Interdicte

Vivemos em um tempo em que os discursos, muitas vezes, podem ser localizados em campos bem demarcados. A depender de onde e com quem estamos fica muito claro o que se deve dizer e o que se deve calar. Nesse sentido, é como se houvessem posições prontas às quais somos convidados a aderir. Na vida social e particularmente nas redes virtuais somos apresentados a um cardápio de identidades e de opiniões pré-estabelecidas que parecem cobrir todas as possibilidades, mas terminam por nos reduzir a duas: ou se está de um lado, ou se está do outro. Diante disso, quem hesita entre as opções disponíveis arrisca-se ser, rapidamente, entendido como covarde, contraditório ou ingênuo.

Mas por mais que se negue, sabemos que a experiência vivida raramente cabe nas categorias que nos são disponibilizadas. E aquilo que uma pessoa sente, deseja ou pensa quase nunca coincide com o que ela acredita que deveria sentir, desejar ou pensar. É justamente nessa fresta entre o que somos e o que se supõe que se deveríamos ser que mora algo que normalmente não encontrada morada.

O que não tem lugar


No consultório, não é rara a experiência de presenciar o alívio que alguém sente por enfim encontrar um espaço onde se possa falar sem que sua fala seja avaliada como certa ou errada. Esse sentimento, por vezes, vem acompanhado de frases como "eu não posso falar disso em mais nenhum lugar". O curioso é que nem sempre se trata, necessariamente, de conteúdos terríveis ou inconfessáveis. Em verdade, trata-se, muitas vezes, de algo bem mais sutil: um pensamento que não se encaixa no que a pessoa mesma espera de si; um sentimento que contradiz suas convicções; um desejo que a surpreende.


Assim, um homem que se considera justo pode descobrir, em análise, impulsos que o envergonham. Da mesma forma, uma mulher que luta por autonomia pode se dar conta de que algo nela revela uma insistente vontade de depender dos outros. Alguém de convicções progressistas pode se deparar com sentimentos que soam conservadores. O oposto, sem dúvidas, também pode acontecer. Frente a isso, é vital considerar o seguinte: contradições como essas não são falhas ou defeitos que demandam correção. São, isso sim, a expressão de algo que todo psicanalista reconhece como constitutivo: somos seres divididos.


A divisão que nos constitui


Na psicanálise, partimos de uma constatação incômoda: não somos transparentes para nós mesmos. Os sonhos, os atos falhos, os sintomas e as escolhas repetidas que não entendemos atestam que existe algo em nós que fala sem nos darmos conta; algo que não coincide, necessariamente, com o que acreditamos ser. Freud chamou isso de inconsciente. Mais tarde, Lacan falou disso em termos de uma divisão subjetiva. Vale frisar que essa divisão não é um problema a ser resolvido; é a condição mesma do sujeito.


Dizer que somos divididos é dizer que há sempre uma distância entre a verdade que nos habita e o que sabemos sobre nós. Essa verdade, por ser inconsciente, não se mostra facilmente. Um indício dela se mostra justamente nos tropeços, ou seja: quando dizemos algo que não queríamos dizer, quando rimos de algo que era para ser sério ou quando sofremos por algo ao menos racionalmente não deveria nos afetar. A psicanálise é, por excelência, o espaço que acolhe os tropeços. Não para corrigi-los, mas sim para escutá-los.


Quando a verdade não cabe nas dicotomias


As polarizações que permeiam a vida contemporânea têm em comum a característica de exigir que ocupemos uma posição por inteiro. A expectativa implícita é que cada um de nós seja uma pessoa completamente coerente e consistente. Fala e ação devem estar perfeitamente alinhados. Mas a experiência clínica, por sua vez, mostra com clareza que as pessoas estão muito longe de ser tão coerentes assim. E os que buscam a coerência a todo custo, frequentemente adoecem. Pois o esforço em manter uma imagem sem fissuras e de se apresentar ao mundo como pessoas que sabem exatamente o que pensam e sentem produz um tipo de enrijecimento que é, em si mesmo, fonte de sofrimento.


Aqui cabe colocar que o oposto do sujeito dividido de que fala psicanálise é antes um sujeito enrijecido do que um sujeito "inteiro". Para não sentir a angústia da contradição e da divisão, o sujeito faz de si mesmo rígido, colando-se, então, a posições supostamente únicas e absolutas. Ao estabelecer que o sujeito é, na verdade, dividido, a psicanálise não está propondo que abandonemos nossas convicções. O que se propõe é que possamos sustentar tais convicções sem precisar abolir tudo aquilo que, em nós, as coloca em cheque.


Há, portanto, uma diferença notória entre ter uma posição diante do mundo e se identificar completamente a essa posição. No primeiro caso, podemos dizer que o sujeito existe para além daquilo que defende. No segundo caso, contudo, qualquer questionamento pode virar ameaça, uma vez que questionar o posicionamento equivaleria a questionar a própria existência daquela pessoa.


Um espaço para o que ainda não tem nome


A psicanálise não oferece um modelo para como se deve viver a vida. O analista não diz ao paciente se ele está certo ou errado, se é progressista ou conservador o suficiente, se seus sentimentos são legítimos ou não. O que não significa que a análise seja um espaço sem ética; muito pelo contrário. A ética da psicanálise consiste em não recuar diante do que aparece, mesmo quando o que surge é difícil, contraditório ou socialmente incômodo. Pois é frequentemente ali, no ponto mais desconfortável da fala, que algo de verdadeiro emerge. Não se trata da verdade enquanto correspondência a uma doutrina prévia, mas sim a verdade como surpresa, como índice da descoberta freudiana do inconsciente. A verdade como aquilo que o sujeito não sabia que sabia, aquilo que ele não esperava dizer. Aquilo que desestabiliza o sujeito e, por isso mesmo, o movimenta.

É nesse sentido que a psicanálise se diferencia de outros espaços de fala. Não se trata de um lugar onde o paciente busca validação e nem de um lugar onde ele irá receber orientações. Trata-se, isto sim, de um espaço onde algo novo pode acontecer; algo que depende, fundamentalmente, da possibilidade de dizer o que ainda não sabemos que pensamos.


A liberdade de falar


A associação livre, regra fundamental da psicanálise, é, aparentemente, um convite bastante simples: diga tudo o que lhe vier à cabeça, sem filtro, sem censura, sem se preocupar se faz sentido ou se é adequado.


Mas há uma sutileza para a qual devemos estar atentos. A palavra "livre", aqui, não implica uma fala aleatória ou sem direção. Quando falamos sem as amarras habituais que nos movem a sempre tentar dizer a coisa certa e a adequar o discurso ao que imaginamos que os outros esperam, o que aparece não é caos, mas sim uma lógica. Lógica esta que não a do pensamento deliberado. É, enfim, uma lógica que revela algo sobre a posição que aquele falante ocupa em sua vida. Posição, enfim, que informa sobre o que, neste sujeito, retorna, insiste e se repete de modos por vezes inesperados. Sobre essa lógica é que o analista produzirá suas intervenções.


A liberdade da associação livre, então, não é tanto a liberdade de dizer qualquer coisa como se nada tivesse peso. Mais do que isso, trata-se de uma liberdade em relação às regras e expectativas que normalmente governam a fala: convenções, conveniências, preocupação com como somos vistos, etc.


É certo que nunca será possível dizer tudo; há sempre algo que nos escapa, um limite. Mas é justamente por nos liberarmos da exigência de dizer as coisas certas que algo de verdadeiro pode se revelar. E em tempo em que a fala é constantemente vigiada pelos outros e por nós mesmos, a existência de tal espaço não é pouca coisa. Espaço onde aquilo que dizemos, por vezes sem mesmo saber porque estamos dizendo, pode nos ensinar algo que não sabíamos sobre nós e sobre o humano.



André Gomes Pacheco — Psicanalista e Psicólogo | CRP 06/108809.

Graduado em Psicologia pela USP. Mestre em Saúde Coletiva pela Unicamp.

Atendimento online e presencial em Perdizes, São Paulo.

 
 
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