Todo mundo tem TDAH? O que está por trás da epidemia de diagnósticos
- André Pacheco
- 3 de abr.
- 6 min de leitura
Atualizado: 4 de abr.
Nas últimas décadas, aumentou de maneira expressiva o número de diagnósticos de TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade). No Brasil, o consumo de metilfenidato (Ritalina, Concerta) entre 2003 e 2012 cresceu em mais de 700%. Hoje, as redes sociais são inundadas de conteúdos sobre a temática, não sendo raros os casos em que alguém chegue ao consultório já com um autodiagnóstico baseado em vídeos do TikTok ou do YouTube. Diante disso, há quem coloque uma questão bastante legítima em pauta: será que sempre existiram muitas pessoas com TDAH não-diagnosticado e só agora isso está vindo à tona ou será que há algo nessa explosão de diagnósticos que precisa ser questionado?
O que dizem as vozes críticas
A preocupação com a alta de diagnósticos não vem apenas de negacionistas ou de quem visa desconsiderar o sofrimento de quem recebem esse tipo de diagnóstico. Pelo contrário: há críticas importantes sendo realizadas por figuras rigorosas e comprometidas.

No quadro crítico vale citar Allen Frances, psiquiatra norte-americano que liderou a elaboração do DSM-IV - o principal manual diagnóstico do mundo - e que, mais tarde, tornou-se um dos maiores questionadores da expansão diagnóstica irrefreada promovida pela edição seguinte do manual, o DSM-5. O argumento de Frances é direto: ao ampliar critérios, a psiquiatria passou a transformar quase toda variação normal da experiência humana em transtorno mental. O resultado é que pessoas que anteriormente poderiam ser consideradas distraídas, agitadas ou simplesmente inadequadas a um certo ambiente passaram a ser diagnosticadas e medicadas.
Aqui no Brasil, a médica e pesquisadora Maria Aparecida Moysés, da Unicamp, vem apontando há anos que uma grande parte dos diagnósticos de TDAH em crianças deve-se não a um problema neurológico, mas sim a uma incompatibilidade entre a criança e as exigências da vida escolar. Em outras palavras, quando uma criança não se enquadra direito nas expectativas de comportamento e de rendimento escolar, acaba sendo mais rápido e conveniente atribuir o problema a ela do que questionar o ambiente e o contexto que produziram suas dificuldades.
Isso não significa que o TDAH não exista enquanto quadro clínico, ainda que muito provavelmente haja sobrediagnóstico. Da mesma forma, os questionamentos colocados não eliminam o fato de que algumas pessoas possam, de fato, se beneficiar do uso de medicamentos. No entanto, diante do crescimento assombroso de diagnósticos, há de se perguntar: o que está acontece em uma cultura que produz tanta dificuldade de atenção? E o que se perde quando nossa resposta é, automaticamente, um rótulo e uma receita?
Desatenção como sintoma de quê?
Quando alguém afirma que não consegue prestar atenção, a pergunta que tende a vir em sequência é: como corrigir isso? Qual técnica, medicação ou estratégia vai devolver a capacidade de focalizar? São perguntas legítimas, mas parciais.
Tentando pensar a partir de uma perspectiva diferente, outras perguntas poderiam ser colocadas. A quê não se consegue prestar atenção? Por que essa determinada coisa não captura o seu interesse?
Talvez seja possível dizer que, ao fim e ao cabo, ninguém tem déficit de atenção para tudo. Assim, alguém que não consegue se concentrar em uma aula, em um relatório ou em uma conversa pode, por outro lado, passar horas absorto em um jogo, uma série, uma rede social ou em um assunto que o fascine. Isso não significa que não haja sofrimento; a dificuldade para se engajar com as exigências da vida é real e costuma ser bastante limitante. Porém, essa atenção que se fixa em alguns pontos e em outros não parece sugerir que o problema não estaria tanto na atenção enquanto capacidade neurológica, mas sim na relação entre o sujeito e aquilo que lhe é demandado.
Dito de outro modo, antes de tratarmos a desatenção como um defeito a ser imediatamente corrigido, talvez fosse importante perguntar o que essa desatenção diz sobre aquela pessoa específica. O que ela deseja? O que ela evita? O que a mobiliza e o que a paralisa? São perguntas que um diagnóstico convencional, via de regra, não faz. Isso porque o diagnóstico agrupa. A escuta, por sua vez, singulariza.

Quando o diagnóstico fecha a pergunta
Na clínica, é comum recebermos indivíduos que chegam com um diagnóstico de TDAH já estabelecido por um colega psiquiatra ou mesmo por meio de autoavaliação. São casos que, por vezes, falam do diagnóstico como um dado absoluto, resolvido: "tenho TDAH, então preciso de medicação e de estratégias para lidar com isso". O diagnóstico, nesses casos, funciona como uma resposta que antecede a qualquer pergunta. Ele nomeia o problema e indica soluções antes mesmo que o sujeito tenha tido alguma chance de se interrogar quanto ao que de fato está em jogo.
Esse tipo de posicionamento (mais colado ao diagnóstico recebido) não pode ser completamente desconsiderado. Mas a clínica analítica revela que, muitas vezes, aquilo que é interpretado como TDAH está articulado a questões que o diagnóstico psiquiátrico usual não alcança. Assim, a dispersão, a procrastinação e a agitação típicas do que é lido como TDAH muitas vezes ocultam uma operação de evitação a todo tipo de sofrimento: angústias que não encontram palavras, desejos que não encontram direção, conflitos familiares ou profissionais que se não podem ser expressos ou enfrentados e assim por diante. É verdade que a medicação pode, sim, atenuar os sintomas; em certos casos, ela pode ser necessária, ainda que temporariamente. O ponto é que somente medicamento não dá conta do que pode estar por trás do sintoma. Se o diagnóstico é tomado como explicação final, ele, sem dúvidas, pode impedir que a pessoa se escute.
Há, portanto, uma diferença significativa entre dar nome a um sofrimento e escutar o que ele tem a dizer. O diagnóstico nomeia. A psicanálise escuta. E as duas coisas não se excluem, mas tampouco se substituem.
Uma cultura que não consegue parar
Não há como falar de TDAH desconsiderando o mundo, o contexto em que vivemos. Hoje, vivemos em um ambiente desenhado para capturar e fragmentar a atenção: notificações, algoritmos de recomendação, feeds infinitos, a oferta permanente de estímulos que disputam cada segundo de nossa vigília. É justo dizer que esse contexto afeta a todos, não apenas aos que acabam recebendo um diagnóstico de déficit de atenção.

Com Allen Frances, podemos afirmar que parte da epidemia de TDAH reflete a patologização dessa reação (previsível) das pessoas às condições ambientais adversas em que vivem. Uma criança que desde o início de sua vida é hiperestimulada e passa a maior parte de sua rotina diante de telas muito provavelmente encontrará dificuldades substanciais quando for requisitada a permanecer horas sentada e comportada em uma sala de aula. Dito isso, não é suficiente olhar apenas para o comportamento da criança; é fundamental considerar o mundo que ela habita.
A isso, poderíamos acrescentar uma observação: a cultura contemporânea não apenas fragmenta a atenção; ela desvaloriza tudo o que é lento, tudo o que exige espera, tudo o que, ao menos aparentemente, não produz resultados imediatos. O remédio, nesse sentido, é sedutor: passado o período de ajustes de dosagem e adaptação do organismo à medicação, ele promete resolução rápida. A psicanálise, em contraste, pede mais tempo. Ela exige justamente aquilo que a civilização pós-moderna desestimula: parar, falar, escutar-se, tolerar o que não se entende de imediato. Em tal sociedade, que parece ter tornado insuportável a ideia de permanecer com uma pergunta sem resposta, não deveria surpreender o crescimento nos diagnósticos rápidos na demanda por soluções farmacológicas imediatas.
Nem negar, nem aderir: escutar
Como já dito, não estamos propondo que o TDAH não exista e nem que absolutamente ninguém deva tomar determinadas medicações. Cabe, porém, considerar o seguinte: a rapidez com que se diagnostica e se medica deveria nos inquietar, nos deixar minimamente desconfortáveis. Pois há dimensões do sofrimento humano que escapam às tipologias psiquiátricas e que só são articuláveis a partir de uma fala aberta à interrogação.
O analista, nesse sentido, não confirma e nem descarta o diagnóstico. Em lugar disso, a psicanálise escuta, questiona. Suspende-se, portanto, a resposta pronta. Talvez, dessa maneira, surja algo que o próprio paciente desconhece sobre si; algo que, em verdade, teste algum revelaria.
André Gomes Pacheco — Psicanalista e Psicólogo | CRP 06/108809 Graduado em Psicologia pela USP. Mestre em Saúde Coletiva pela Unicamp. Atendimento presencial em Perdizes (São Paulo) e online. Entre em contato pelo WhatsApp.


